A obra contribui para salvaguardar a música tradicional cabo-verdiana e valorizar a língua cabo-verdiana, em particular a variante de Santiago. A música tradicional deve ser preservada, mas também permanecer viva, aberta à inovação e capaz de dialogar com a modernidade, porquanto nunca foi estática: viaja, transforma-se, acompanha a diáspora e regressa enriquecida.
O livro de Correia acolhe esse movimento entre tradição e renovação. Reúne 23 composições originais, com cifras e partituras para diferentes instrumentos, e valoriza géneros representativos do folclore nacional, sobretudo a morna e o funaná. A cifra pode apoiar quem aprende guitarra no interior de Santiago, enquanto a pauta abre as composições a músicos e estudiosos familiarizados com a notação musical. As letras abordam temas da vida crioula e da identidade cultural, da resiliência e do sofrimento às relações conjugais e ao combate aos males sociais. Escritas, quase na totalidade, segundo o alfabeto oficial ALUPEC, afirmam também a presença escrita da língua cabo-verdiana. A importância da obra reside ainda em evidenciar a diversidade musical do país, porquanto o património não se constrói apenas com grandes mitos, mas também com o trabalho persistente de quem cria, regista e transmite.
O património cabo-verdiano não é uma unidade indiferenciada: reúne géneros, práticas e tradições que se cruzam e se transformam. Nesse sentido, o repertório musical de Henrique Correia ajuda a contrariar uma oposição historicamente difundida: a de que Santiago seria essencialmente percussiva, ligada ao batuque e ao funaná, enquanto a morna pertenceria exclusivamente às ilhas do Barlavento, embora o livro não apresente um enquadramento teórico-conceptual explícito. Essa divisão é redutora, porque desconsidera a circulação musical e a história da composição no arquipélago. A inclusão de mornas em número superior ao de outros géneros tipicamente santiaguenses constitui um contributo concreto para desconstruir essa dicotomia. A morna não é criação, propriedade ou prática exclusiva do Barlavento. A sua presença em Santiago é real e historicamente consolidada, embora desigual e marcada por formas próprias. Tende a ser mais intensa nos centros urbanos — como Praia, São Domingos, Tarrafal, Assomada e Pedra Badejo —, onde se concentram a população, a circulação de pessoas e as oportunidades de sociabilidade musical.
Nos espaços rurais, géneros como o funaná, o batuque, o cotxi pó e a tabanca mantêm uma ligação particularmente forte às práticas comunitárias, à oralidade, às festas, às redes de parentesco e às ocasiões familiares, enquanto a presença da morna perde intensidade à medida que nos afastamos daqueles polos urbanos. Essa coexistência não estabelece uma hierarquia. A morna pode atravessar territórios e representar amplamente a identidade crioula, sem ser vivida da mesma forma em toda a ilha ou apagar as musicalidades locais. A música cabo-verdiana constitui um universo plural, no qual se entrecruzam diversas tradições, repertórios e formas de criação. Para descrever a presença da morna em Santiago, proponho a noção de «transversalidade assimétrica», formulada por mim próprio a partir de uma investigação sociológica de campo realizada no interior da ilha, entre 2022 e 2023.
A morna circula pelo arquipélago, é reconhecida como emblema nacional e alcança a diáspora; a sua implantação, porém, varia entre ilhas, concelhos, meios sociais e gerações. Em Santiago, essa distribuição desigual é particularmente visível, embora não seja exclusiva da ilha. A morna assume contornos próprios, mas permanece ligada à matriz da música tradicional cabo-verdiana. Na obra de Correia, este género musical exprime realidades socioculturais do interior e processos locais de socialização. Os acordes dissonantes, as influências do jazz e da bossa nova e o andamento ligeiramente mais rápido acompanham uma procura de renovação. Em vez de imitar a morna clássica da Boa Vista, da Brava ou de São Vicente, Henrique Correia imprime-lhe a pulsação de Santiago e uma sonoridade própria, na linha da diversidade musical.
A dimensão linguística merece igual atenção. A variante de Santiago foi historicamente alvo de preconceitos e associada à ruralidade informal, enquanto as variantes do Barlavento foram, por vezes, consideradas mais adequadas à expressão lírica da morna. Ao escrever as letras na variante santiaguense, Henrique Correia afirma uma identidade, valoriza a cultura e a memória coletiva de Santiago e demonstra, além disso, que a língua cabo-verdiana, na sua diversidade, dispõe de recursos poéticos, sonoros e metafóricos capazes de responder a diferentes exigências estéticas. Correia é simultaneamente compositor e responsável pela transcrição das suas peças. As cifras e partituras fixam uma referência próxima da conceção original e reduzem o risco de erros na passagem da música à escrita. Essa fixação não limita interpretações futuras: oferece a outros músicos uma base para estudar, executar e recriar as composições.
O registo escrito da música cabo-verdiana tem antecedentes históricos que remontam, pelo menos, à segunda metade do século XIX, incluindo as transcrições publicadas pela Sociedade de Geographia de Lisboa em Músicas populares de Cabo Verde (Lisboa, 1875). Entre as recolhas de referência contam-se também as obras do Padre José Maria de Sousa, reunidas nos dois volumes de Hora di Bai (Boston, 1973), e Mornas e Contra-Tempos (Coladeras) de Cabo Verde. Recolhas de Jótamont, de Jorge Fernandes Monteiro, publicado em 1987; as composições próprias de Vasco Martins, publicadas em Mindelo no início da década de 1980; Música Caboverdeana. Mornas para piano, de Jorge Fernandes Monteiro (Jótamont), Praia–Mindelo, 1995; Cadernos de um Trovador, de B. Léza, Associação Cultural Etnia, Lisboa, 2004; e Música Popular Antiga de Cabo Verde, de Désiré Bonnafoux, edição copiada de 1987 e segunda edição, França, 2023. Posteriormente, músicos reconhecidos pela escrita em pauta, como Padre Firmino Cachada, Humberto Ramos, Carlos Matos, Eutrópio Lima da Cruz, Casimiro Tavares, Pedro Celestino e Larissa Morais, registaram, em partituras publicadas em livros, composições de consagrados compositores como Ano Nobu, Tututa Évora, Amílcar Spencer Lopes (Miquinha), Manel d’Novas, Kim Alves, Jorge Tavares, Teté Alhinho, Dany Lobo, Mané Razuedje, Djidjungo e Adão Silva Gomes (Adão de Jovita).
O interesse particular de Cifras & Partituras reside em reunir composições do próprio autor, por ele transcritas, à semelhança do que fizeram, em publicações próprias, Jorge Monteiro (Jótamont), em 1987 e 1995, e B. Léza, em 2004. Ao registar as suas obras, Correia não encerra a música na página: oferece-a à escuta, ao estudo e à interpretação. A escrita preserva uma referência; a música continua a viver quando é tocada, cantada e transmitida. A contribuição do livro estende-se, assim, à música e à língua cabo-verdiana, bem como à memória cultural de Santiago e de todo o país. É também um testemunho do trabalho persistente de quem cria e valoriza a cultura, mesmo sem figurar entre os melhores compositores da ilha nem ocupar o centro da consagração mediática.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1298 de 14 de Outubro de 2026.
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