Questionado sobre se a vitória interna, no domingo, é o início de um percurso para se candidatar a primeiro-ministro, disse antes ser “uma caminhada para reorganizar o MpD, devolvê-lo aos militantes e [ir] degrau a degrau”.
“Eu acho que 2031 [próximas legislativas] ainda está longe, nós temos uma convenção [este ano] e eleições em 2029. O nosso objetivo é devolver o partido às bases, reconquistar as câmaras municipais e tornar o MpD, outra vez, o maior partido autárquico de Cabo Verde”, referiu.
Só depois, “em 2029, havendo confiança e condições para eu me recandidatar à presidência do MpD, aí sim, poderemos falar de outros voos e outros objetivos”.
Paulo Veiga quer recuperar cerca de 38 mil eleitores perdidos em dois mandatos (dez anos), entre a vitória com maioria absoluta nas legislativas de 2016 e a derrota de maio deste ano para o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) – e quer também refletir sobre a abstenção.
“A soma dos dois partidos com mais votos é muito inferior à abstenção e isto é uma coisa que nós temos de analisar”, apontou.
O ato eleitoral registou uma abstenção recorde no arquipélago, com mais de metade dos eleitores inscritos a preferirem ficar longe das urnas (taxa de abstenção de 53,5%).
Segundo Paulo Veiga, a distância já era “visível”: “algo que me foi dito no país e na diáspora era que havia um excelente governo, mas que era distante”, com bons dados macroeconómicos, mas com uma dissonância face ao dia-a-dia, fosse nas compras ou no acesso a serviços.
“Acho que falhámos, enquanto partido e enquanto governo, a comunicar as nossas medidas, a explicar, a estar próximo e a ajustar quando nos foi pedido”, como nas eleições autárquicas, em que o MpD recuou de 14 para sete câmaras: “isto tinha de ser lido como um sinal, mas optámos por dizer que são eleições diferentes e por não ouvir”.
Uma das medidas que leva para a XIV Convenção Nacional do MpD, a realizar nas próximas semanas, “é alterar os estatutos para devolver poder às comissões concelhias, aos núcleos (…)”, disse, indicando que, em 2016, “quem escolheu os deputados e presidentes de câmara” foram os órgãos locais “e, em 2024 e 2026, foi a cúpula”.
“Há uma centralização de poder, que precisa ser devolvido, porque quando as pessoas sentem que não estão a ser ouvidas e que nada podem influenciar, desinteressam-se”, referiu.
Depois de ganhar as eleições internas, conversou com os adversários (Herménio Fernandes e Luís Filipe Tavares), prevendo que devem “reunir-se várias vezes, antes da convenção” para encontrarem “soluções para unir o partido”.
Sobre o grupo parlamentar, preferiria que a eleição do líder (Luís Carlos Silva), escolhido em junho, tivesse sido remetida para depois das eleições internas.
“Mas foi uma opção dos deputados e eu respeito. E serão eles, depois das reuniões e dos encontros que tivermos, que vão nos dizer se é necessário fazer alterações ou se continuamos com a mesma liderança. O importante é estarmos em sintonia", referiu.
Da mesma forma, Paulo Veiga chega à liderança depois de o partido já ter declarado apoio à ex-ministra da Justiça, Joana Rosa, como candidata às eleições presidenciais de 15 de novembro – em que enfrenta a recandidatura do atual chefe de Estado, José Maria Neves, que terá o apoio do PAICV.
“Combinámos uma conversa, eu respeito, revejo-me na colega Joana Rosa como uma boa candidata e terá o apoio logístico do partido”, disse, apontando que são eleições “suprapartidárias” em que a candidata define a estratégia: “se quiser o presidente do MpD a fazer campanha e a estar ao lado dela, eu estou cá para representar os militantes e os órgãos” do partido.
Seria "boa" uma vitória de Joana Rosa, “mas qualquer coisa acima dos 30% acho que é um bom resultado, porque sabemos que é muito difícil ganhar a um incumbente”, disse.
“Isto não vai ser uma batalha fácil, mas acreditamos que há caminhos para lá chegar e se Joana Rosa optar por deixar o partido apoiar na estratégia para a campanha, penso que há probabilidade de ter um bom resultado”, acrescentou.
O novo líder carrega um apelido com história no MpD: “A minha inspiração para entrar na política foi do meu pai [Carlos Albertino Veiga], que também é fundador. Ele e o Carlos Veiga [primo direito e primeiro presidente do MpD], desde 1985, foram deputados, ainda no tempo do partido único”, recordou.
“Não há dúvida que Carlos Veiga é uma inspiração. É um democrata, é um herói e eu revejo-me muito na forma de ele estar”, disse, acerca do primeiro líder do partido, que se tornaria primeiro-ministro nas primeiras eleições multipartidárias, em 1991, até 2000.
“Eu prometi na campanha voltar a ter o MpD de Carlos Veiga, que era um MpD muito próximo das pessoas, muito comunicativo com a sociedade e com os seus militantes. Esse peso está e vai estar comigo durante os meus três anos de mandato”, concluiu.
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