Como é que está a analisar este anúncio de possível extinção da UTA e a sua integração na UNI-CV?
Eu estou preocupado. Não vejo isso com bons olhos, como boa medida de política, especialmente porque o que levou à criação da UTA, a sua missão institucional, teve em conta outras dinâmicas regionais fundamentais para o desenvolvimento endógeno do país. E, por outro lado, a UTA é uma instituição que ainda está em processo de instalação, que ainda não deu os seus frutos para ser avaliada, e parece que este anúncio pretende já matá-la antes mesmo de poder prestar contas, não é? Isto é preocupante. Quer dizer, o anúncio feito da forma como foi feito preocupa toda a gente. Pelo que eu tenho sentido aqui, não só em São Vicente, no meio social, está todo mundo apreensivo, porque no início do ano lectivo, temos um anúncio deste tipo que desassossega.
Há pouco falava das características da UTA. Uma das características era trabalhar as diferentes vocações das diferentes ilhas. Isto irá perder-se com esta integração pela UNI-CV?
Eu não acredito que isso se venha a efectivar. Acho que este anúncio foi meio avulso, sem contexto, sem preparação. E estamos a falar de uma universidade pública diferente, como referiu. É uma universidade politécnica, não é uma universidade clássica. A UTA tem uma missão específica que liga e que dá conta da economia e das vocações diversas das ilhas, em especial destas, do Barlavento. Isto é o país que há anos sentiu isso e que reclama e cria esta Academia, esta solução, e de repente dá a impressão que nos arrependemos, com argumentos que não colam de maneira nenhuma, nem sob o ponto de vista político, nem sob o ponto de vista económico, nem sob o ponto de vista cultural ou social. A missão da UTA está assente na inovação tecnológica, na economia azul, no mar, na agronomia, na aeronáutica e turismo, e mais recentemente associou a arte, o design, a arquitetura e o urbanismo, arte e ofícios contemporâneos. Estávamos convictos de que, pelo menos, a UTA pudesse vir provar a validade da sua criação e, sobretudo, assente num legado de mais de 40 anos. O ISECMAR, que tem uma história única aqui na história do país, foi o baluarte, foi o alicerce da criação da Universidade Pública em Cabo Verde. Depois temos estas surpresas.
O professor Brito-Semedo escreveu que Cabo Verde precisa de decidir se quer instituições predominantemente voltadas para a oferta de cursos ou universidades capazes de produzir conhecimento próprio. Ora a UTA tinha como objectivo produzir conhecimento e poderá assim ser transformada em apenas mais uma fábrica de licenciados.
Eu penso que devíamos estar é a pensar na UNI-CV, a trabalhar a UNI-CV para o próximo futuro. Isto é que devíamos estar a fazer. Isto é que é a nossa preocupação, pelo menos das pessoas que estão mais próximas do problema. E devíamos estar a falar de um sistema de ensino superior e de investigação no país, para nesta fala incluirmos as universidades privadas e o seu importante papel nas políticas públicas de educação e ensino superior no país. Estão a ser ignoradas politicamente e isto é um erro crasso. Ignorar o investimento da sociedade civil na academia, ignorar o esforço das famílias, das empresas, as aspirações dos jovens nesse complexo que é o sistema do ensino superior em Cabo Verde preocupa-nos, preocupa-nos imenso. Esses argumentos vindos ao público de universidades, rácios de universidades, instituições supranacionais, canalizam com viabilidade. Não sei a que tipo de viabilidade é que estarão a referir. Se é viabilidade económica, se é demográfica, se é cultural, se a viabilidade política de um país que se deve reger por outro tipo de análise - das suas próprias análises e do seu projecto de país. Não estamos a falar de economia, estamos a falar de uma organização/empresa que se rege por outros parâmetros. Juntar duas universidades com perfil e missão diferentes, uma clássica e uma politécnica, numa mesma reitoria, ainda por cima rigidamente centralizada, é um erro absoluto. É um erro absoluto. Tem que se dizer que é um erro absoluto. E esse erro, para ser desmontado, tem que haver narrativas e discursos políticos com outra ponderação. Isto inquieta-nos imenso.
A justificação de racionalização de recursos é suficiente? Ou é igual a não dar qualquer fundamentação?
Quando Cabo Verde, nas vésperas da independência, começou a afirmar-se, as autoridades foram aconselhadas a desistir desse intento, porque não teríamos viabilidade. Imagine se os nossos, naquela altura, dessem ouvidos a essas análises, a essas bitolas e esses raciocínios que importamos de outro, quando o nosso problema é endógeno. Nós é que temos que desenhar a nossa vida, o nosso futuro. E as nossas universidades devem reflectir isso. Essas noções de pequenez. Manuel Lopes, no ensaio Meios Pequenos e Cultura, lembra que os meios pequenos não têm que ser forçosamente acanhados. Os meios pequenos podem superar os seus limites físicos e territoriais pela cultura do espírito, pelo conhecimento e pela sua produção crítica, enquanto os meios acanhados, que não permitem, na linguagem dele, nem livres voos, nem livres marchas, limitam iniciativas e restringem esforços individuais. Imagine, Manuel Lopes escreveu isso há 76 anos. Tanto a noção do acanhado como a noção do pequeno extravasam a noção quantitativa do território e a sua carga demográfica. 76 anos depois temos essa regressão de pensamento. E que, repare, até põe em causa toda a luta, toda a história recente deste país até à sua independência. Quer dizer, bolas, o que é que está a acontecer? O que é que está a acontecer neste momento? Eu tenho dificuldade em perceber esses raciocínios e esses pensamentos.
O possível fim da UTA tem impacto na oferta educativa cabo-verdiana?
Não só. Tem impacto na alma do desenvolvimento desse país. Está-me a lembrar o que aconteceu em 1937, quando o governo colonial surpreendeu as ilhas, encerrando o então Liceu Infante Dom Henrique. Com uma diferença de hoje, é que Lisboa não anunciou, mandou encerrar. Mandou encerrar e pronto. A notícia chegou de imediato, aqui a São Vicente. Você nem imagina o que é que aconteceu aqui de levantamento, de telegramas para Lisboa, de mobilização da população de todas as categorias, como se dizia então. Alunos, professores, famílias, associação comercial, foi um levante que você nem imagina. 15 dias depois foi mandado reabrir. Agora com outro nome, como Liceu Gil Eanes. É isso que conta a história da passagem do Liceu Infante Dom Henrique para o Liceu Gil Eanes. E a notícia de há dias faz-nos pensar, mas o que é que se está a passar? Como é que ainda não sossegamos para continuar a nossa caminhada com alguma serenidade.
E acha que hoje, tanto a comunidade académica como a sociedade civil terão essa força que houve quando a mensagem que veio de Lisboa? Agora, sendo mensagem que vem da Praia, haverá força para mudar esta decisão?
Ainda não é decisão, não é? Temos governantes inteligentes, temos gente inteligente, decisores inteligentes. Acho que não vamos chegar lá. A diferença, de facto, é que os tempos são outros. Esta sociedade civil, essas forças vivas da sociedade, na verdade existem. Agora, manifestam-se de forma diferente. Muitas vezes pelo silêncio ou pelo conformismo. Essa é que é a diferença. Mas, não sendo a sociedade na sua dimensão expressiva, haverá indivíduos, pensamentos individuais que estarão a reagir e estarão a ponderar. Isso é bom, independentemente de não ser muito visível a reacção da comunidade.
A oposição já reagiu, o MpD já fez uma conferência de imprensa a manifestar-se contra.
A oposição está a fazer o seu trabalho e nós vamos fazendo o nosso, que não tem vínculo nenhum, mas pensando, continuando a pensar no país e no que poderá ser bom para esse país. Como estou a pensar nos estudantes.
Seria uma machadada nas aspirações dos alunos do Barlavento?
São Vicente está a criar a sua cultura universitária, o que é absolutamente normal, que se fundamenta até na tradição cultural desta zona. É a zona que tem uma história, uma história nas tecnologias, uma história cultural também específica, como outras terão. Muitas das referências importantes deste país têm sede de criação aqui. Movimentos culturais, movimentos artísticos e, pela primeira vez, a Academia está a fazer o seu trabalho, que é trazer toda essa tradição, todo esse legado, para a dimensão académica, universitária. Pela primeira vez em Cabo Verde formaram-se professores de arte, formaram-se arquitectos e urbanistas mestres, formaram-se designers e até em cinema se formou nesta zona. No curso de cinema vieram alunos do Brasil, de Portugal, de Senegal e de Moçambique. Não foi só por causa do curso, tem a ver também com a questão cultural. Uma ilha que atrai, uma zona que funciona aqui de uma forma orgânica, criativa, apelativa. Quando temos a possibilidade até de internacionalizar as nossas iniciativas políticas nesta área, ameaçamos dar para trás, anular. Isto é mais do que preocupante. Não acredito que o país retroceda dessa maneira.
Por aquilo que temos estado a falar, a UNI-CV nunca poderá substituir a função desempenhada pela UTA.
Não pode, de maneira nenhuma. Não pode! Primeiro, é diferente. A concepção é diferente. É uma universidade clássica que deveria ser cuidada pelos poderes políticos para cumprir também o seu papel como uma universidade clássica. Temos promessas há vários anos de que a carreira de investigador vai arrancar, programas específicos vão arrancar... Nunca conseguimos, através da UNI-CV, de facto, sediar políticas de investigação que nos convençam. Que partam desse país, com os meios desse país, com o pensamento desse país, com os cientistas deste país. Há tanto que investir na UNI-CV. É preciso cuidar da UNI-CV. Agora, é preciso não destruir os avanços que o país vai tendo lá onde me parece bem, como é o caso de se ter criado a UTA, que ainda está em instalação, é preciso sublinhar isso, que ainda não teve nem meios. Talvez agora comece a ter meios para se instalar de facto e para mostrar ao que veio e o que vale. A UTA tem um papel fundamental para este país nos próximos tempos. E por outro lado, também é a UTA que pode, de facto, começar a criar alicerces fundamentados para a descentralização e o regionalismo tão esperados neste país.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1294 de 16 de Setembro de 2026.
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