São perguntas que nos dizem respeito porque, para nós, a viagem começa ainda muito antes da partida. Começa na própria geografia. Somos ilhas cercadas de mar, confinadas num canto do mundo, e talvez por isso o mar tenha deixado de ser apenas paisagem para se tornar personagem, destino, promessa e, algumas vezes, também um obstáculo intransponível.
Há, na nossa literatura, uma ideia particularmente forte: a da viagem que nunca chega a acontecer. O desejo de partir que permanece apenas um desejo, a viagem imaginada, sonhada, adiada. Como se o viajante pudesse atravessar o mar apenas com o pensamento e, ainda assim, continuar do lado de cá. Essa viagem impossível, ou nunca realizada, talvez seja uma das formas mais profundas da nossa insularidade. Somos insulares não apenas na geografia, mas igualmente no imaginário, nas vivências e nas trajetórias. Poderemos não permanecer para sempre insulares, superar barreiras e atravessar continentes, mas continuaremos sempre a carregar a ilha dentro de cada um de nós.
Pela nossa condição insular, o mar acaba por entrar nas nossas vidas e por estar profundamente presente na literatura cabo-verdiana, sobretudo na poesia, não apenas como um espaço físico, mas também como uma medida da distância. Do outro lado do mar, estão as terras que imaginámos, os países que conhecemos primeiro através das histórias, das músicas, dos filmes, das chamadas «fitas de cinema», como dizia Jorge Barbosa. O mundo chegava, e continua a chegar, até nós antes que nós próprios pudéssemos, ou possamos, chegar até ele.
Daí nasce um duplo desejo. Há a viagem entre as ilhas, essa necessidade de circular dentro do próprio arquipélago, e há a viagem para além do horizonte, para lugares distantes que durante muito tempo habitámos pela imaginação. Lugares de bonança, de fartura, de trabalho, de futuro, de uma felicidade que, por ser distante, parecia sempre possível.
Não é difícil compreender porquê. A nossa história foi marcada por secas, fomes e outras formas de adversidade que transformaram a partida numa necessidade, mas também numa esperança. Emigrar foi, para muitos, a viagem possível quando a viagem sonhada parecia não ter caminho.
Talvez por isso a diáspora seja hoje uma das expressões mais concretas dessa longa relação que temos com a partida. Há mais cabo-verdianos espalhados pelo mundo do que vivendo no arquipélago. É como se as ilhas, pequenas demais para conter todos os seus filhos, tivessem aprendido a prolongar-se através deles.
Quando penso na viagem, vejo pelo menos três movimentos. Primeiro, o desejo de partir. Depois, a viagem dos outros, daqueles que chegam às nossas ilhas e nos devolvem uma imagem de nós mesmos, muitas vezes marcada pela pobreza e pela distância, como já disseram os nossos poetas. E, finalmente, as nossas próprias viagens, esse encontro com o mundo exterior que a diáspora tornou permanente.
Também a minha relação com a literatura nasceu, de certo modo, dessa experiência de partir e regressar. Quando comecei a escrever ficção, depois de uma fase mais ensaística, a primeira trilogia nasceu em Coimbra, durante os doze anos em que vivi como estudante na diáspora. Foi longe das ilhas que senti a necessidade de regressar a elas, não fisicamente, mas pela literatura. Regressei então a uma aldeia, a uma pequena rua diante do mar, a um tempo que não vivi e que, no entanto, procurava reconstruir através da memória das gerações anteriores. A literatura tornou-se uma forma de viagem de retorno. Não para reencontrar exatamente aquilo que ficou para trás, porque esse lugar já não existe, mas para procurar aquilo que dele permanece na memória.
Talvez seja essa a grande contradição da viagem: partimos à procura de outro lugar e, muitas vezes, descobrimos que levamos connosco aquele de onde partimos. A diáspora produz saudade, mas a saudade também inventa. Idealiza a terra deixada para trás e, quando finalmente acontece o regresso, pode surgir a desilusão, porque a realidade raramente coincide com o lugar que a memória construiu. A literatura conhece bem essa distância entre o lugar imaginado e o lugar real. E talvez seja justamente aí que começa a liberdade criativa. Quando a realidade nos fecha as portas, a imaginação abre uma janela. Podemos viajar para países onde nunca estivemos, regressar a tempos que não vivemos, habitar lugares que só existem porque alguém os escreveu.
Por isso, para nós, cabo-verdianos, a viagem não é apenas uma deslocação. É uma condição de existência, uma maneira de imaginar o mundo e de imaginar a nós mesmos. Às vezes partimos. Outras vezes ficamos. E há ainda aquelas viagens que nunca chegam a acontecer, mas que, de tanto serem sonhadas, acabam por fazer parte da nossa história. Talvez seja essa a viagem que nunca termina: aquela que começa no desejo de partir e continua, mesmo quando já não sabemos se queremos chegar a outro lugar.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1298 de 14 de Outubro de 2026.
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