18 de Outubro: o dia em que Cabo Verde se reconhece

PorManuel Brito-Semedo,19 out 2026 7:47

No dia 18 de Outubro de 1867 nasceu, na ilha Brava, Eugénio Tavares. A data foi instituída como Dia Nacional da Cultura pela Lei n.º 72/VI/2005, de 4 de Julho, e a designação passou a incluir as Comunidades com a Lei n.º 9/VIII/2011, de 29 de Dezembro.

Ao associar o poeta a uma celebração que aproxima os cabo-verdianos das ilhas e os que vivem espalhados pelo mundo, a escolha reconhece uma experiência comum. Na sua vida e na sua obra encontram-se a ilha, o mar, a saudade e a distância, que atravessaram gerações e ajudaram a dar forma à cultura cabo-verdiana.

A voz de Eugénio

Poeta, compositor, jornalista, dramaturgo e homem de intervenção, Eugénio Tavares deixou uma marca funda na cultura cabo-verdiana, sobretudo através da morna, onde o amor, a ausência e a saudade encontraram uma das suas formas mais duradouras. A Brava, terra do seu nascimento, estava já profundamente ligada aos caminhos da emigração, em particular aos Estados Unidos, e essa experiência de partidas e regressos fazia parte do ambiente social e afectivo em que a sua obra se formou.

Ao longo do tempo, Eugénio ultrapassou a própria biografia e passou a integrar o imaginário colectivo. A sua obra permaneceu na memória de sucessivas gerações pela capacidade de dar palavras a sentimentos reconhecíveis numa sociedade habituada à separação e à espera. Cantados em encontros familiares e comunitários, os seus versos ganharam novas vozes e chegaram a quem conhecia Cabo Verde pelas histórias dos mais velhos. A morna transformou, desse modo, experiências individuais em linguagem partilhada, permitindo que cada ouvinte reconhecesse numa canção alguma coisa da sua própria vida.

A proximidade entre a palavra escrita e a palavra cantada ajuda a compreender essa permanência. Na morna, o poema ganha respiração e alcança outros públicos pela voz de quem o interpreta, aproximando a literatura da experiência quotidiana. Essa relação entre criação e vida estende-se às estórias contadas, ao teatro, à dança, às artes visuais e ao artesanato. A celebração encontra assim em Eugénio um ponto de partida para reconhecer como as diferentes artes trabalham a experiência cabo-verdiana, dando forma ao país vivido e imaginado.

Partir para viver

A circulação fazia parte da formação da sociedade crioula muito antes de a emigração adquirir a dimensão que hoje lhe reconhecemos. O contacto entre populações e referências culturais deu às ilhas uma abertura que as sucessivas vagas migratórias viriam a ampliar. A ligação às rotas baleeiras norte-americanas, com antecedentes no século XVIII, abriu caminhos de emigração, sobretudo para habitantes da Brava e do Fogo. No século XIX, o embarque de cabo-verdianos nesses navios contribuiu para a fixação de comunidades nos Estados Unidos, que conservaram relações duradouras com o arquipélago.

Desde a segunda metade do século XIX, as secas e as fomes favoreceram o recrutamento de cabo-verdianos para as roças de São Tomé e Príncipe. Esse movimento ganhou maior dimensão no século XX, sob um regime colonial de trabalho contratado marcado por condições duras e práticas coercivas. Dacar ganhou também expressão como destino regional africano, enquanto Angola recebeu cabo-verdianos em diferentes percursos, incluindo o trabalho contratado. As partidas respondiam à procura de sustento e às crises vividas nas ilhas, embora as condições de saída e de trabalho variassem entre destinos. A emigração consolidava-se como uma resposta às dificuldades, frequentemente acompanhada de novas formas de dependência e privação.

A partir da década de 1960, a Europa passou a ocupar um lugar crescente nessa geografia. Portugal ganhou particular importância, a que se juntaram França, Holanda e Itália, entre outros destinos. Partir exigia conhecer um novo lugar, construir outras rotinas e encontrar espaço numa sociedade diferente. Nas famílias, as responsabilidades repartiam-se entre quem saía e quem ficava a assegurar o quotidiano da casa, a cuidar dos filhos e dos mais velhos e a manter aberto o lugar de quem partira. A história da emigração pertence também a essas pessoas, cujo trabalho sustentou a vida familiar durante a ausência.

O país além das ilhas

Os vínculos entre quem partia e quem ficava prolongavam-se para além das remessas, das cartas e dos regressos ocasionais. Com os emigrantes viajaram a língua, a música, a comida, as memórias de família e as maneiras de estar. Em sentido contrário chegaram hábitos e formas de vestir, de trabalhar e de imaginar o futuro. Nos lugares de acolhimento, a língua de casa passou a conviver com a da escola e do trabalho, enquanto as rotinas familiares se ajustavam a outras exigências. Desse encontro, por vezes difícil, nasceram maneiras de ser cabo-verdiano que incorporavam aprendizagens feitas fora do arquipélago e davam à origem um lugar no presente.

A pertença ganhou expressão nos gestos mais simples: preparar uma comida, contar uma estória da ilha ou ensinar uma expressão crioula. Na cozinha, nas conversas e nas festas de família, os mais novos puderam conhecer sabores, palavras e costumes ligados ao percurso dos pais e dos avós. A transmissão oral aproximava-os dessa herança, que os livros, a música e outras formas de expressão ajudavam a conhecer melhor. Integrada na vida de todos os dias, a cultura permitia-lhes compreender o que recebiam e escolher como continuar a vivê-lo, em diálogo com as experiências do país onde cresciam.

As associações, os encontros culturais e as celebrações comunitárias deram uma dimensão pública a essa relação com Cabo Verde. Aos espaços de convívio e de entreajuda juntaram-se oportunidades de ouvir música, conhecer livros e partilhar outras expressões artísticas. Para filhos e netos que nunca tinham vivido permanentemente nas ilhas, esses encontros permitiam descobrir o país para além das recordações de casa. A criação oferecia-lhes também um espaço para exprimirem o que significa crescer entre referências diferentes. Com as perspectivas trazidas por cada geração, a diáspora tornou-se um lugar de participação e de renovação cultural.

Um dia que nos reúne

Passados 159 anos sobre o nascimento de Eugénio Tavares, celebrar o 18 de Outubro é reconhecer o alcance da sua obra e olhar para a criação do presente. Nas ilhas e na diáspora, músicos, escritores, actores, artistas plásticos e artesãos retomam referências herdadas e recriam as experiências do seu tempo. Nos livros, nos palcos, nas exposições e nos espaços de convívio, os seus trabalhos chegam a quem lê, escuta, assiste e participa. A vitalidade dessa relação depende também das condições para criar, divulgar as obras e formar novos públicos ao longo do ano. A data oferece, por isso, uma ocasião para reconhecer o que se faz e pensar no que precisa de apoio e continuidade.

Cabo Verde construiu-se nas ilhas e nos caminhos que delas partiram, nas casas deixadas para trás e nas outras que os cabo-verdianos foram levantando pelo mundo. Entre esses lugares circularam pessoas, palavras e experiências que alargaram a vida do arquipélago. Ao reunir essa história em torno de Eugénio Tavares, a celebração liga a voz do poeta ao percurso de um povo que aprendeu a viver entre terras. O 18 de Outubro é, por isso, o dia em que Cabo Verde se reconhece na cultura que criou e nas comunidades que continuam a recriá-la pelo mundo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1298 de 14 de Outubro de 2026.

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Autoria:Manuel Brito-Semedo,19 out 2026 7:47

Editado porAndre Amaral  em  19 out 2026 7:47

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