E que depois veio juntar-se o alastramento do conflito no Médio Oriente, na sequência do ataque do Hamas a Israel em Outubro de 2023 e subsequente retaliação dos israelitas que acabou por criar constrangimentos fortes na produção, no transporte e na distribuição de combustíveis, repercutindo nos preços. A última gota de água foi o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão, em Fevereiro deste ano, que agravou ainda mais a situação ao não resultar numa mudança de regime e, pelo contrário, possibilitou o controlo do Estreito de Ormuz pelos iranianos.
O disparar dos preços dos combustíveis deve-se em boa medida ao facto de em Junho se ter posto fim às medidas de mitigação que vinham limitando no país os efeitos dos aumentos dos preços dos combustíveis sobre os consumidores. Um outro factor é a atitude recentemente mais céptica dos mercados internacionais quanto à resolução rápida do conflito com o Irão, o que levou o preço do barril de petróleo a ultrapassar os 100 dólares.
A este primeiro choque poderá seguir-se um segundo depois de Dezembro se, como previsto, for retirado o controlo dos preços de electricidade e água e também do gás butano. Aí os efeitos nos rendimentos das pessoas e na economia serão mais profundos e abrangentes.
A alternativa de continuar a mitigar os efeitos do aumento internacional dos preços tem custos e é de sustentabilidade duvidosa. Primeiro, não se sabe até quando vai durar a actual situação de conflito aberto, quando uma alternativa à passagem pelo estreito de Ormuz será estabelecida e quanto tempo será necessário para estabilizar o mercado de energia. Segundo, a pressão sobre o orçamento do Estado, que a manutenção das medidas de mitigação dos preços irá provocar, se não for contrabalançada por cortes ou poupanças nas despesas do funcionamento ou no investimento, acabará por desembocar em défices. Também poderá ser notado na possível inflexão da trajectória dos últimos anos de diminuição da dívida pública com consequências gravosas para o rating do país e para a sua imagem junto das organizações internacionais.
É o que está a acontecer na generalidade dos países do mundo nos quais o aumento de inflação, das taxas de juro e da dívida pública está a contribuir para uma quebra do crescimento económico, ao alargamento da desigualdade social e aumento da pobreza e consequente perda de acessibilidade das pessoas a um conjunto de bens e serviços, designadamente habitação, saúde e educação devido aos custos elevados. Como encarar essa situação complexa, numa conjuntura de grandes tensões geopolíticas, de tentações protecionistas e de enfraquecimento do direito internacional e do multilateralismo, é o grande desafio que se coloca aos diferentes governos, particularmente nas democracias. As manifestações na França, as eleições antecipadas em Espanha, os votos a dirigirem-se para partidos da direita ou da extrema-direita na Europa e no Brasil dão conta do mal-estar que se instala quando soluções tardam em ser encontradas.
Em Cabo Verde, a viragem verificada nas eleições de 17 de Maio foi, em contracorrente, para a esquerda. A caracterizar o novo governo, o primeiro-ministro no seu discurso de celebração dos primeiros 100 dias diz que estes “já dizem muito sobre o caminho que escolhe seguir”. Começa por confessar que ao procurar conhecer o país em profundidade encontraram uma realidade mais exigente do que inicialmente previam. Não obstante, parece que resolveram não fazer um compasso de espera para se ajustarem à complexidade da situação encontrada e em menos de duas semanas já tinham apresentado ao parlamento um orçamento rectificativo e garantido a sua aprovação.
Avançaram com as propostas de gratuitidade de ensino superior e da saúde, bem como de tarifas únicas para os transportes aéreos e marítimos, não porque respondiam à realidade mais exigente encontrada, mas por serem promessa de campanha e prova de autenticidade junto dos seus seguidores. Aliás, no elencar das medidas de política que o PM apresentou no seu discurso, vê-se que, para além da ideia da gratuitidade, não é claro que haja alguma coisa de novo em termos de visão, na forma de abordar os problemas do país e na procura de uma orientação que potencie na plenitude os seus recursos. Repetindo que a governação vai se centrar nas pessoas, o que parece oferecer é gestão corrente na óptica de um “Estado de amparo” com o suporte da solidariedade internacional e o apoio da diáspora.
E como se pode comprovar, isso é insuficiente para garantir a contínua prosperidade dos cabo-verdianos, sobretudo quando o mundo em mudança rápida favorece a lei do mais forte, é crescentemente transacional e avesso ao multilateralismo e pouco dado à solidariedade. Mesmo na situação actual do país a crescer 6,3 % em 2025, 6,4 % no primeiro trimestre de 2026 e 8,9% no segundo trimestre, são múltiplas as dificuldades vividas pela generalidade das pessoas. Não é fácil lidar com o aumento do custo de vida, com insuficiências em vários sectores, em particular da habitação, transportes, saúde e educação. Nem com os problemas que a facilidade de mobilidade cria para garantir e preservar capital humano adequado nas ilhas e também para atrair e integrar mão-de-obra do estrangeiro necessário para manter o ritmo de crescimento económico e para compensar a baixa natalidade.
A procura de eficiência devia ser uma das orientações-chave do país tanto para dinamizar a sua economia com menos custos e mais qualidade como também para garantir que os frutos do crescimento cheguem a todos, potenciando o contributo que cada um, pela sua iniciativa, motivação e espírito inovador, poderia propiciar à comunidade. Muito das insuficiências que as pessoas se deparam no dia-a-dia no fornecimento de bens e prestação de serviços tem a sua origem na inexistência de uma cultura que promova eficiência, valorize a poupança e estimule a inovação. Se existisse, os particulares desafios de Cabo Verde enquanto arquipélago teriam sido um estímulo para que o país estivesse num outro patamar no digital. O mesmo se poderia dizer nas energias renováveis e a procurar respostas aos problemas colocados pelas alterações climáticas. Hoje Cabo Verde seria mais resiliente perante a volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis e estaria menos ansioso em relação à perspectiva de perda de população em algumas ilhas.
Um factor que contribui para a baixa competitividade de uma economia são os custos de contexto para os quais contribuem grandemente a ineficiência do Estado e da sua administração na prestação dos serviços públicos. Para além da sua estrutura pesada, da excessiva burocracia, é a falta de uma cultura de serviço público que acaba por ser o maior bloqueio a existência de um Estado competente, facilitador da iniciativa individual e empresarial e prestador atempado dos serviços aos utentes. Prejudica particularmente a Administração Pública e a sua eficiência e eficácia o tipo de exercício com alvo nos funcionários, que acontece quando há mudanças de governo, como testemunham os 100 dias passados do novo governo.
Com as nomeações e exonerações rápidas e em todos os lugares passa-se a impressão que nenhum escalão da função pública está a salvo de mudanças de base partidária ou pessoal. O medo instala-se, não há espaço para cumprimento dos princípios de isenção e imparcialidade e sujeita-se a prestação de serviços públicos às decisões discricionárias dos politicamente empoderados. Se esse é o exemplo que os primeiros 100 dias “dizem muito sobre o caminho que o Governo seguir” não se pode esperar senão retrocesso da administração do Estado. Face a isso, os desafios que o país, a sociedade e as pessoas vão enfrentar nos anos próximos perspectivam-se difíceis. Se associado a isso persistir o cultivo de cultura de dependência da sociedade e das pessoas em relação ao Estado, então adivinham-se ainda maiores dificuldades para as pessoas realmente enfrentaram as disrupções a vários níveis que já são visíveis na linha do horizonte.
Humberto Cardoso
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1297 de 07 de Outubro de 2026.
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