Num tom de advertência, Guterres deu hoje início ao debate anual da Assembleia-Geral das Nações Unidas (UNGA), o seu último enquanto secretário-geral, no qual frisou que as fraturas no mundo atual estão a alargar-se e as "fissuras tornaram-se abismos".
Guterres recordou que, na última década, guerras irromperam com consequências devastadoras e arrastaram-se com uma "crueldade desprezível", em que civis tornaram-se alvos, os direitos humanos foram "pisoteados", a fome foi usada como arma e vários trabalhadores humanitários acabaram mortos.
"O direito internacional foi descartado. As divisões geopolíticas aprofundaram-se. As desigualdades intensificaram-se. A confiança desgastou-se. A crise climática passou de um alerta longínquo para uma realidade diária. E a inteligência artificial avançou a uma velocidade que apanhou de surpresa até mesmo aqueles que a criaram", apontou.
"Não são crises isoladas. São capítulos da mesma história. A história do poder. Quem o detém. A quem é negado. Como é utilizado. E como está a mudar", acrescentou o líder da ONU.
A cerca de três meses de deixar a liderança das Nações Unidas, Guterres apontou críticas à forma como o poder está a ser remodelado, em que novos centros de influência económica, política e tecnológica emergiram entre Estados, mas em que se registou também uma extraordinária transferência de poder dos Governos para um pequeno grupo de empresas privadas e particulares.
"O seu alcance estende-se agora pela política, economia, fluxos de informação, desenvolvimento tecnológico e o espaço cívico de que as sociedades dependem", afirmou, sobre o poder detidos por empresários.
Observou ainda que os humanos estão cada vez mais a entregar poder às máquinas, "com agentes de inteligência artificial descontrolados" e "armas autónomas letais que passaram da ficção científica para a realidade militar".
No entanto, apesar das drásticas mudanças, considerou que as instituições e sistemas de governação global continuam a refletir as realidades de poder e os interesses de uma época "em grande parte passada".
"Este é o desafio crucial que enfrentamos. No preciso momento em que a humanidade enfrenta uma convergência de ameaças sem precedentes, os nossos mecanismos de ação coletiva estão sob crescente pressão", declarou.
Na sede da ONU, em Nova Iorque, o antigo primeiro-ministro de Portugal indicou que caminhar para um mundo multipolar é um movimento irreversível, mas apelou a que seja uma multipolaridade em rede, com um mundo construído sobre a interdependência "e sustentado por uma densa teia de ligações económicas, políticas, sociais e tecnológicas".
Um mundo assim, na visão do líder da ONU, pode ajudar a evitar tendências hegemónicas e aquilo a que chamou de "a Grande Fratura", ou seja, a divisão do mundo em dois blocos rivais com sistemas económicos, tecnológicos e de segurança separados.
"A construção deste futuro começa com o reconhecimento, especialmente por parte das superpotências, de que o seu poder não é tão super. O seu poder tem limites", observou.
Para isso, sustentou que os países não terão de começar do zero, uma vez que têm a Carta das Nações Unidas como uma base sólida.
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