Russos elegem parlamento sob guerra, repressão e suspeitas sobre votação

PorExpresso das Ilhas, Lusa,17 set 2026 8:02

Os russos começam na sexta-feira a votar numas legislativas dominadas pela guerra na Ucrânia e em que o partido Rússia Unida, apoiante do Presidente Vladimir Putin, procura conservar a maioria constitucional perante uma oposição limitada pelas autoridades.

A votação decorre durante três dias, até domingo, e metade dos 450 deputados da Duma (o parlamento russo) será eleita através de listas partidárias nacionais, enquanto os restantes 225 resultarão de círculos uninominais, nos quais vence o candidato mais votado.

Podem votar os cidadãos russos com pelo menos 18 anos, incluindo os que se encontram no estrangeiro, onde Moscovo anunciou a abertura de mais de 300 assembleias de voto.

O Rússia Unida parte como favorito num sistema político fortemente controlado pelo Kremlin e no qual as restantes quatro forças atualmente representadas na Duma (Partido Comunista, Partido Liberal-Democrático, Rússia Justa e Novo Povo) têm apoiado, no essencial, as principais decisões do poder e a guerra na Ucrânia.

Nas legislativas de 2021, o Rússia Unida conseguiu 49,8% dos votos e controla atualmente 310 dos 450 lugares da Duma, acima dos 300 necessários para manter uma maioria de dois terços que lhe permite aprovar alterações constitucionais sem depender de outros partidos.

O Partido Comunista dispõe de 56 deputados, o Rússia Justa de 27, o Partido Liberal-Democrático de 22 e o Novo Povo de 15, havendo ainda quatro deputados sem partido e 16 lugares por preencher, segundo os dados da Duma.

A dimensão da vitória do Rússia Unida será, por isso, um dos principais indicadores políticos do escrutínio, mais do que a identidade do vencedor.

Uma sondagem do instituto estatal VTsIOM, realizada no final de agosto, atribuía 37% ao partido presidencial e 11,6% aos comunistas.

A eleição é a primeira para a Duma desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, e ocorre num contexto de crescente impacto interno da guerra, entre ataques ucranianos com drones em território russo, escassez de combustíveis, inflação, taxas de juro elevadas e falta de mão de obra.

O próprio discurso eleitoral do Rússia Unida está ligado ao conflito e Putin assumiu um papel destacado na campanha, que associa o voto à unidade nacional e à vitória militar.

A principal exceção ao consenso em torno do conflito é o liberal Yabloko, única formação política legal na Rússia que defende abertamente o fim da guerra e negociações de paz.

O Supremo Tribunal russo excluiu, no entanto, a lista nacional de candidatos do Yabloko das eleições, depois de uma ação apresentada pelo partido nacionalista Rodina, deixando apenas alguns dos seus candidatos a disputar círculos uninominais.

Vários desses candidatos foram entretanto afastados, detidos ou sujeitos a processos relacionados com acusações de desacreditar as Forças Armadas ou divulgar símbolos considerados extremistas pelas autoridades.

A repressão atingiu igualmente outras figuras da oposição, algumas das quais foram impedidas de concorrer depois de classificadas como sendo "agentes estrangeiros" e o principal organismo independente russo de fiscalização eleitoral, Golos, encerrou em 2025 após anos de pressão das autoridades.

Apesar dessas restrições, alguns candidatos do Yabloko continuaram a fazer campanha. Sondagens do centro independente Levada indicam que mais de 60% dos russos preferem negociações para pôr fim à guerra.

A credibilidade do processo eleitoral é também contestada devido ao voto eletrónico remoto, que estará disponível em mais de 30 regiões, além de Moscovo, entre sexta-feira e domingo.

O Yabloko, setores comunistas e opositores no exílio apelaram aos eleitores para votarem apenas no domingo e através de boletim em papel, alegando que o sistema eletrónico não permite uma fiscalização independente adequada.

Na quarta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, denunciou alegadas tentativas ocidentais de interferir no escrutínio, tanto no território russo como nas assembleias de voto abertas no estrangeiro.

As acusações surgiram no mesmo dia em que um grupo de piratas informáticos denominado CikLeak afirmou ter penetrado nos servidores da Comissão Eleitoral Central (CEC) e denunciou o que classificou como um sistema de votação eletrónica "completamente opaco".

Moscovo alega que as eleições respeitam a legislação russa e acusa os países ocidentais de procurarem desestabilização e de desacreditarem previamente os resultados.

As dúvidas internacionais são, contudo, reforçadas pela ausência dos principais observadores europeus.

A Rússia não convidou a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) para acompanhar as eleições, decisão que a organização considerou contrária aos compromissos assumidos por Moscovo e parte de um padrão de afastamento dos princípios de transparência, responsabilização democrática e Estado de Direito.

Outra fonte de contestação é a realização da votação na Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, e nos territórios ocupados das regiões ucranianas de Donetsk, Lugansk, Zaporijia e Kherson, cuja incorporação na Federação Russa não é reconhecida internacionalmente.

A Ucrânia já declarou essas eleições ilegais e advertiu que não reconhecerá os resultados nos territórios ocupados.

Os Estados Unidos não divulgaram, ao longo do processo de campanha, uma posição específica sobre as legislativas deste fim de semana, mas Washington não reconhece a anexação russa da Crimeia e classificou anteriormente como fraudulentas as votações organizadas pelas autoridades russas em territórios ucranianos ocupados.

No entanto, o Presidente Donald Trump não se pronunciou publicamente sobre estas eleições.

Mais do que determinar quem controla a Duma, o escrutínio deverá assim funcionar como um teste à capacidade do Kremlin para apresentar uma imagem de estabilidade e apoio popular após mais de quatro anos e meio de guerra.

Analistas ocidentais acreditam que o Rússia Unida deverá conseguir garantir uma nova maioria expressiva, como uma renovação do apoio ao regime e à sua política na Ucrânia, apesar de o resultado ocorrer num quadro de competição política fortemente condicionada.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,17 set 2026 8:02

Editado porAndre Amaral  em  17 set 2026 11:25

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