Banco Mundial - Preço dos alimentos vai aumentar

PorJorge Montezinho,7 nov 2026 7:44

Os preços das mercadorias devem crescer 23% em 2026, à medida que os choques globais se intensificam, isto de acordo com a mais recente Perspectiva dos Mercados de Commodities do Grupo Banco Mundial. Alimentos, mas também energia estarão entre as maiores subidas.

As notícias não são as melhores, segundo o documento publicado pelo Banco Mundial, a perspetiva para os mercados de matérias-primas tornou-se cada vez mais complexa e o efeito dos choques pode ser reforçado por múltiplas frentes de conflito e por um El Niño excepcionalmente forte. O índice de preços das matérias-primas será o segundo mais elevado desde 2013.

Os preços médios das mercadorias alimentares devem aumentar 10% em 2026. Em 2027, prevê-se que os preços dos alimentos subam mais 7%, ou seja, um aumento acumulado de 17%. Isto reflecte principalmente as dificuldades enfrentadas pela produção de arroz na Ásia e pela produção de trigo a nível global, geralmente relacionadas com a deterioração das condições de cultivo, em alguns casos devido ao El Niño.

Há, inclusive, uma grande probabilidade do El Niño de 2026-2027 ser o mais forte desde 1950, quando começaram os registos, pelo que as previsões de base para as mercadorias alimentares podem revelar-se excessivamente optimistas. Um El Niño excepcional pode resultar em eventos climáticos de extrema severidade em locais inesperados, com inundações e secas a prejudicarem as condições de cultivo de mercadorias como o arroz, o óleo de palma e de coco, a soja, o cacau e o café. Isto poderá elevar significativamente os preços das bebidas, óleos, farinhas e grãos.

Mas a realidade poderá piorar. Os riscos para as projeções dos preços das matérias-primas estão inclinados para preços mais elevados, devido tanto à gravidade destes riscos como ao potencial de amplificação mútua. O maior risco é que a intensificação das hostilidades no Médio Oriente reduza drasticamente as exportações de petróleo.

Interrupções maiores do que o esperado, relacionadas com conflitos na Rússia e na Ucrânia, também podem impulsionar os preços das matérias-primas. O El Niño pode destabilizar a produção de mercadorias agrícolas mais do que o previsto, gerando outra fonte de aumento de preços.

Estes aumentos terão impacto no combate à fome. A luta global contra a insegurança alimentar obteve avanços lentos desde que a pandemia de COVID-19 levou mais pessoas à escassez. Em 2025, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, no mundo, atingiu os 779 milhões, uma redução face aos 803 milhões em 2024 e aos 837 milhões em 2021. Ainda assim, os esforços para reduzir a insegurança alimentar regrediram desde a década de 2010: a insegurança alimentar grave afectou 9,5% da população mundial em 2025, em comparação com uma média de 8,1% entre 2015 e 2019.

Já os preços da energia deverão aumentar 32% este ano e recuar 12% em 2027. Em relação às previsões de Abril, os preços projectados da energia foram revistos em alta em 7% para 2026 e 14% para 2027, reflectindo interrupções de fornecimento mais longas, mas menos intensas, no Médio Oriente.

Economia africana

Um segundo documento do Banco Mundial, Africa Economic Update, foi também publicado e sublinha que o crescimento económico na África Subsariana manteve-se bastante estável, apesar dos desafios regionais e domésticos. O crescimento regional deverá aumentar de 4,1% em 2025 para 4,3% em 2026 — uma revisão em alta de 0,3 pontos percentuais para este ano em relação à edição de Abril de 2026 do Relatório Económico do continente.

No entanto, o aumento do endividamento público e o espaço fiscal limitado restringem as respostas políticas em muitos países. As interrupções localizadas, incluindo os choques climáticos extremos, o surto de Ébola na República Democrática do Congo, bem como os desafios políticos e de segurança, perturbam a actividade económica e agravam as vulnerabilidades existentes.

Mas, como refere o Banco Mundial, nem todos os países estão na mesma situação. Um grupo de 20 nações, entre elas Cabo Verde, Maurícias, Ruanda, Tanzânia e Seychelles, apesar da exposição ao aumento dos preços da energia, entrou na crise com fundamentos políticos mais sólidos, incluindo reservas cambiais mais adequadas, posições fiscais e de dívida mais robustas e maior qualidade institucional.

Igualmente, alguns países, mais uma vez com Cabo Verde neste grupo, beneficiaram do aumento das receitas do turismo e das remessas, que ajudaram a compensar os custos das importações. Embora o turismo contribua para o equilíbrio das contas externas, o aumento das importações, dos custos de frete e das despesas relacionadas com o investimento continuam a pesar nas contas correntes. Os fortes fluxos de remessas ajudaram a estabilizar as posições da balança corrente em Cabo Verde, Etiópia e Gâmbia, compensando parcialmente o aumento das contas de importação.

Para o continente, prevê-se que o crescimento do rendimento per capita aumente modestamente de 1,6% em 2025 para 1,8% em 2026, antes de atingir uma média de 2,0% ao ano em 2027-2028. Embora o crescimento esteja a robustecer gradualmente, continua a ser insuficiente para reduzir substancialmente a pobreza extrema ou criar oportunidades de emprego adequadas para a força de trabalho da região, que está a crescer rapidamente. Como resultado, espera-se que a redução da pobreza permaneça lenta.

Por outro lado, a IA está a tornar-se uma fonte cada vez mais importante de resiliência para a África Subsariana. No entanto, o continente entra na era da IA com grandes deficiências nas bases necessárias para dela beneficiar: conectividade, computação, dados, competências e apoio linguístico. Cerca de 900 milhões de africanos permanecem offline; o continente tem 18% da população mundial, mas apenas 0,6% da capacidade global de data centers, e apenas cerca de 5% dos data centers africanos estão preparados para a IA.

A IA oferece um potencial significativo para abordar alguns dos desafios de desenvolvimento mais persistentes da região, incluindo a baixa produtividade, os défices de capital humano e a fraca prestação de serviços. Mas para concretizar este potencial, será necessário eliminar as lacunas principais. A cooperação regional será fundamental para a expansão da IA na África Subsariana.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1301 de 04 de Novembro de 2026.

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Jorge Montezinho,7 nov 2026 7:44

Editado porSara Almeida  em  7 nov 2026 14:19

pub
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.