Escolas de música enfrentam desafios na preservação da morna

PorDulcina Mendes,7 nov 2026 7:32

O ensino da morna nas escolas de música continua a enfrentar desafios, desde o interesse dos jovens até à falta de recursos e de professores com formação musical. Apesar das dificuldades, os responsáveis de escolas defendem a valorização da música tradicional e o reforço de iniciativas que incentivem os alunos a nutrir o gosto pela morna.

Teleto Tavares descobriu o seu gosto pela música desde muito cedo, ao ouvir o pai a tocar violão em casa. O jovem conta que passou pela escola de música Escala Maior, uma escola comunitária no bairro de Eugénio Lima, na Cidade da Praia. Na Escala Maior, aprendeu a tocar violão e piano e desenvolveu ogosto pela morna. “Eu acho a morna uma música muito rica”.

No entanto, o género musical com que maisse identifica é o R&B. Apesar do seu amor pela música, o jovem conta que a sua carreira está em suspenso, porque está mais focado no seu trabalho, uma vez que é professor de Física e Química.

Esta reportagem procura compreender o papel das escolas de música na preservação da morna. A morna foi oficialmente classificada como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, a 11 de Dezembro de 2019, durante a 14.ª reunião do Comité Intergovernamental, em Bogotá, na Colômbia.

Desde então, têm surgido algumas iniciativas, tanto privadas como públicas, para preservar a morna. O Expresso das Ilhas conversou com responsáveis de algumas escolas de música para saber o que estão a fazer neste sentido.

O responsável pela Vivarte Escola de Arte, Isaías Tavares, afirmou que as escolas de música desempenham um papelimportante na preservação da morna, porque trabalham a identidade musical e a própria morna.

“Trabalhamos no sentido de ajudar os alunos a ter mais gosto pela nossa cultura e pela morna. E, como sabemos, a morna tem uma espécie de identidade, de sentimento, de história do povo cabo-verdiano”, explica.

Isaías Tavares acrescentou que aescola procura,sobretudo,contribuir para a preservação da culturacabo-verdiana. “Então, por isso, as escolas de música ajudam muito nisso”.

Já o representante da Escola de Música Ritmo de Burkan, Socorro Silva, explica que as escolas de música têm um papel importante na preservação da música tradicional. “Acredito que, pelo número, mesmo que seja pequeno, têm estado a fazer a diferença na vida das nossas crianças. No futuro, vamos incentivar as crianças, para que possam dar continuidade e, quiçá, ter uma área de formação e tornarem-se músicos”.

Interesse dos alunos

O instrumentista, professor, compositor e fundador da Escola Pentagrama, Tó Tavares, afirma que os alunos mostram interesse em aprender músicacabo-verdiana, embora os jovens procurem interpretá-la de acordo com as suas próprias realidades.

“Existe interesse, mas não da maioria. A maioria esmagadora está mais voltada para as músicas populares, aquelas que estão mais, digamos, ‘na moda’. Mas, quando lhes é explicado qual foi a razão e o contexto em que a música foi feita, bem como a raiz da construção dessas obras musicais de Cabo Verde, começam a sentir e a identificar-se com elas e acabam por ver esse património musical como a sua identidade. Então, começam a valorizá-lo”, assegura.

Segundo o fundador da Escola Pentagrama, há interesse, sobretudo, por parte dos alunos que estão ligados ao ensino da música e à aprendizagem. “Mas, hoje, o interesse dos jovens pela música está quase totalmente voltado para a procura por parte de várias instituições de carácter turístico, que procuram apresentar o produto turístico através de jovens cantores e músicos, que usam a nossa música para apresentar esse produto em várias instituições de restauração, hotéis e outros espaços”.

Isaías Tavares salienta que, no início, é sempre complicado quando os alunos entram na escola de música, porque os jovens preferem músicas mais agitadas. No entanto, disse que, com o tempo, quando começam a estudar música, sentem a beleza da morna. Assim, embora seja complicado no início, acabam por gostar.

“E, muitas vezes, começam a habituar-se quando ouvem a morna, porque sentem aquela beleza. A morna é um género muito rico. Quando tocamos violão ou cantamos, há um sentimento rico nas notas e nos acordes. Então, os alunos vão sentir vontade de tocar com o tempo”, realça.

Socorro Silva sublinha, por seu lado, que a escola tem desenvolvido um trabalho de sensibilização para mostrar aos alunos que precisam de aprender a nossa música. “Quase não temos, à partida, o gosto ou o interesse, mas tentamos direccioná-los e mostrar-lhes a necessidade de conhecermos a nossa própria música e tudo aquilo que é a música de Cabo Verde”.

Desafios

Para Tó Tavares, o desafio está do lado das instituições e do Estado de Cabo Verde, no sentido de reconhecer o papel da educação musical e introduzir o ensino da música nas escolas, por várias razões.

“A partir das escolas, podíamos fomentar, divulgar e promover talentos ligados à música em Cabo Verde. Mas esse é o primeiro desafio que eu acho. O segundo desafio, que vem posteriormente, é, depois de as instituições, como o Ministério da Educação e as câmaras municipais, assumirem esse papel, o próprio Estado assumir a formação de um corpo docente especificamente para ensinar música”, indica.

Tó Tavares assegura que é preciso que as pessoas entendam que, para ser professor de Geografia, é preciso formar-se em Geografia; para ser professor de Matemática, é preciso formar-se em Matemática; para ser professor de Educação Física, é preciso formar-se em Educação Física; e, para ser professor de música, é preciso formar-se em Pedagogia da Música.

Já para Isaías Tavares, os desafios estão relacionados com as músicas mais fáceis de cantar, que os alunos tendem a ouvir mais e a cantar com facilidade. “Mas é um desafio enorme. E nós, na escola de música, vamos trabalhar com eles paulatinamente. Vamos trabalhar a música até incutir esse gosto. Quando sentirem esse gosto pela morna, será mais fácil trabalhar com eles”.

O responsável da Vivarte Escola de Arte disse que realizam sempre algumas actividades culturais, nas quais os alunos fazem actuações. “E, quando realizamos este tipo de actividades, os alunos sentem mais vontade de se inspirar noutros artistas e sentem mais gosto pelas músicas tradicionais”.

Por outro lado, indicou que a escola teve alunos que passaram por lá e que hoje estão no mundo da música. “Há alguns meninos que passaram pela escola de música e que estão no mundo da música neste momento, como é o caso de Sónia Sousa, Teleto Tavares e outros que estão nessa caminhada”.

Do ponto de vista de Socorro Silva, os desafios têm a ver com o local onde a escola está instalada e com os meios de que dispõe para crescer e dar uma resposta mais abrangente. “Por exemplo, a escola fica numa zona dispersa e não temos condições de dar resposta, devido à nossa condição financeira”.

Segundo Socorro Silva,o objectivo é abranger um número considerável de alunos. “Mas sentimos que a necessidade de sair de Achada Furna (na ilha do Fogo), vai implicar mais recursos financeiros”.

Professores

O fundador da Escola Pentagrama critica o facto de muitos professores de música não serem formados na área musical. “As escolas de música não devem ser feitas apenas com um espaço e instrumentos, procurando quem sabe tocar e quem é filho de quem toca para ensinar a tocar”.

Para Tó Tavares, instituições como o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação devem, primeiro, construir escolas de música e fomentar a formação de professores nessa área.

“Mas tem que começar assumindo este desiderato e este papel. É o Ministério da Educação e as demais instituições do Estado que devem assumir a responsabilidade de fazer com que a educação musical seja, de facto, uma modalidade importante no contexto da formação, introduzi-la nas escolas e, depois, procurar formar professores para isso”, realça.

Quanto à preservação, Tó Tavares sublinha que não deve ser feita apenas através de áudio ou audiovisual. “Tem que se transcrever, porque a transcrição de uma obra é como se estivéssemos a colocar a identidade da música no papel”.

Por outro lado, afirmou que a formação dos cabo-verdianos fica incompleta se não lhes for dada a oportunidade de ter um instrumento importantíssimo na formação e na educação, que é a música.

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“Em todos os países se ensina música, provavelmente por razões económicas. Mas aqui, em Cabo Verde, temos um problema: é que os cabo-verdianos têm um talento para a música fora do normal. Ou, pelo menos, acima da média, usando uma linguagem mais adequada. O cabo-verdiano tem uma tendência para a música que não é comum”, indica.

Tó Tavares salienta ainda que devemos, por exemplo, fazer com que os nossos concidadãos e as nossas crianças aprendam na área em que, de facto, o seu talento possa servir de locomotiva, como impulso. “Mas é preciso assumir isto, o papel que a música e a educação musical têm, e depois reconhecer essa capacidade que o cabo-verdiano tem para a música”.

Isaías Tavares refere que a escola dispõe de colaboradores nas aulas de música. “São pessoas que têm conhecimentos na área da música, mas não são formadas nessa área”.

O responsável da Vivarte Escola de Arte acrescentou que os professores da escola são voluntários, porque possuem outras profissões. Por isso, estão na escola como colaboradores, mas vão sempre adquirindo mais conhecimentos na área da música.

A Vivarte, conforme disse, dispõe de uma banda musical para as actuações. “Mas não é algo frequente, por causa de outros compromissos relacionados”.

Já Socorro Silva relata que trabalham com professores que são músicos, mas não são formados na área musical. “A ideia é recrutar pessoas locais ligadas à música e que tenham conhecimentos nessa área para ensinar as crianças”.

Ensino

Tó Tavares salienta que as escolas de música estão a ensinar obras da música tradicional. “Na Escola Pentagrama, o nosso método inclui maioritariamente obras cabo-verdianas: mais de 50% das obras são de Cabo Verde. Estudamos a música cabo-verdiana. É por isso que, agora, por exemplo, já temos alunos a executar obras no seu sentido mais autêntico da música de Cabo Verde”.

O fundador da Escola Pentagrama refere que outras escolas que conhece também têm estado a fazer este trabalho. “Usamos os métodos clássicos, por exemplo, no meu caso, para trabalhar a estética, o rigor técnico e também para aprender a fazer a leitura de música, mas as obras musicais são cabo-verdianas. Acho que, de uma forma ou de outra, as escolas que existem estão a fazer isso”.

Por outro lado, salientou que há outras medidas que têm de ser tomadas pelas instituições. Avançou ainda que a produção de mornas e coladeiras em Cabo Verde tem diminuído drasticamente.

“E aí, o papel das instituições, como a Câmara Municipal, através da área da Cultura, passa pela promoção de concursos para incentivar talentos na área da composição musical e premiar obras musicais de Cabo Verde, mornas e coladeiras. Tudo isso incentiva e promove a criação de novas obras musicais cabo-verdianas, de mornas e coladeiras, por exemplo”, relata.

Tó Tavares afirmou que essas iniciativas não têm acontecido e que não será uma associação a fazer esse trabalho. “Embora existam alguns festivais de morna, sobretudo nas ilhas de São Nicolau, São Vicente e Boa Vista, são iniciativas privadas. Quando uma instituição como o Governo, o Ministério da Cultura ou as câmaras municipais intervém, fá-lo com um caderno de encargos, regras, regulamentos e algumas exigências, no sentido de garantir que, neste caso, a morna seja feita com determinadas características”.

Por isso, defendeuacriação de um projecto de festivais ou concursos que promova o surgimento de novos compositores de música cabo-verdiana.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1301 de 04 de Novembro de 2026.

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Autoria:Dulcina Mendes,7 nov 2026 7:32

Editado porSara Almeida  em  7 nov 2026 12:05

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